Na quarta-feira passada o Delfim Netto escreveu um artigo na Folha intitulado “Vantagem Estratégica” que eu estou para comentar já há alguns dias. Nesse artigo, Delfim chega à conclusão de que o “bloco asiático” terá um crescimento endógeno elevado em relação aos demais países do mundo por conta de um novo acordo de livre comércio, que supostamente será assinado pelos países da região.
Até aí, nada de mais. O que me deixou intrigado foi o uso de dados de PIB ajustados para PPP para mostrar a força da China e de outros países asiáticos. A teoria do PPP (Purchasing Power Parity, ou paridade do poder de compra), ao que me consta, presta-se mais a análises de renda per capita de países diferentes (porque permite uma comparação melhor do padrão médio de vida de seus habitantes) do que propriamente a lucubrações sobre crescimento global. (Para entender melhor a teoria do PPP, recorra a um bom livro-texto introdutório de economia internacional como Krugman-Obstfeld, ou alternativamente consulte o excelente verbete PPP no Wikipedia.)
A afirmação de que “oitenta por cento da taxa do crescimento mundial se deve ao ‘mundo emergente’” é no minimo enganadora, porque é uma afirmação feita com base na participação dos países no PIB mundial ajustado para o PPP. Usando dados do PIB nominal em 2006 (disponíveis no site do Fundo Monetário Internacional), podemos ver que o quadro é bem outro e aquele número não chega a 60% (de certa forma impressionante, mas não tanto quanto os propalados 80%). Basta olhar para a coluna à direita na tabela abaixo e calcular (0,8% + 0,1% + 1,3%) / 3,7% = 59.5%. Como conseqüência, a contribuição do mundo desenvolvido para o crescimento global não é de 20%, mas sim de mais de 40%. Da mesma forma, a assertiva de que “o bloco asiático no qual se inclui o Japão já gera 1/4 da produção mundial” não se sustenta quando são utilizados os PIBs nominais de cada país e região – este número é inferior a 18%. A China, cujo PIB PPP representaria 19% do PIB mundial, em termos nominais responde por apenas 8,7% do produto global.

A crescente importância da China para a economia mundial é inegável, mas é preciso manter uma certa perspectiva. EUA, Europa e Japão são responsáveis (pelo menos por enquanto) por mais de 2/3 do produto global, ao passo que China, Hong Kong, Taiwan, Singapura e Coréia do Sul juntos não chegam a 9% (número bem diferente dos 19% mostrados no artigo do Delfim). O impacto dos “outros emergentes” (Brasil incluído) é também menor do que o que se afirma no artigo da Folha – 24,5% versus 36%.
Ou seja, analisando os números com mais calma e sem entrar no band-wagon da China, pode-se concluir que ainda falta muito chão para que a Ásia e outros países emergentes se tornem as potências do crescimento mundial como muitos querem acreditar.
Finalmente (mas já levantando um ótimo assunto para outro post), é bom lembrar que um dos principais motivos pelos quais a China cresce a uma velocidade assustadora é o enorme “espaço” que existe para esse crescimento. Em termos simples, economias mais maduras simplesmente não tem como crescer a taxas de 8% ou 10% ao ano porque já estão em um nível avançado de utilização de sua capacidade produtiva. Como bem colocou um amigo meu, comparar o crescimento dos EUA ou da Europa com o da China é como comparar o crescimento proporcional de um jovem adulto com o de uma criança de dois anos.
18 Junho 2007 at 11:15 am
Mestre… mestre…